Cabelos vermelhos!

Com toda essa violência e guerra contra o tráfico no Rio de Janeiro, foi inevitável não lembrar, dos ataques do PCC em maio de 2006 aqui em São Paulo. Mas vou poupar a todos do texto onde faço minha analogia sobre as políticas de segurança adotadas pelos dois governos.

O fato é que, esse reboliço todo no Rio me fez voltar ao ano de 2006, quando eu ainda tinha meus 17 anos, estava no meu primeiro ano no colégio novo, o Costa Manso no Itaim Bibi, bairro nobre de São Paulo. Ainda me lembro da noite que fiquei impossibilitado de voltar para casa por causa da violência — Conheci logo que entrei no colégio uma ruiva, linda, cheia de sardas no rosto, sotaque de menina do interior, sorriso debochado, com corpo esguio, a falsa magra sabe, aquela que de longe é magrela, mas tem carne nos pontos estratégicos para se pegar… É quase que inevitável não querer estar com alguém assim, e nossa aproximação aconteceu de forma natural.

Logo me vi, namorando uma burguesinha do Itaim, vinda do interior onde morava com a mãe, para morar com o pai, um velho casca grossa, mas, meus atrevimentos não paravam por ai, a ruiva era mais velha que eu 3 anos, falava inglês fluente, coisa que eu não faço até hoje, estava acostumada a frequentar lugares onde geralmente os que moram no mesmo bairro que eu estão somente para servir. Claro que seu pai não gostou nada de saber que sua filha estava se envolvendo com um suburbano, pobre, que morava na periferia, ela teve que enfrentar o velho pra curtir sua ultima aventura antes de terminar o colégio. E enfrentar dezenas de outras coisas para estar ao meu lado em lugares impróprios pro seu estilo de vida.

Numa daquelas noites que a cidade parou por conta do PCC, sai do colégio e fui deixar a ruiva em casa. Eu a deixei em frente ao seu apartamento luxuoso, e me dirigi a minha realidade, o 609-F que passa na Nove de Julho. Ao chegar no ponto me dei conta de que não passava carros, a cidade estava muito vazia, os ônibus não estavam mais circulando temendo algum ataque, as pessoas já tinha se recolhido com medo da violência, já era tarde e eu só tinha aquele ônibus que não iria passar para voltar pro morro, liguei pra ruiva para desejar-lhe bons sonhos e dizer que eu ia demorar para chegar em casa por conta do toque de recolher do crime organizado, foi ai que ela teve a grande ideia!

Seu pai já estava dormindo, e sua avó também, e ela me convidou para passar a noite com ela. Era muito arriscado, mas diante dos acontecimentos, eu não tinha como dizer não, e nem diria mesmo em outras ocasiões. Mesmo morrendo de medo, eu fui a forra, correr o risco de ser pego e preso por invasão à domicílio, roubo ou qualquer outra coisa que o velho quisesse me acusar, estando eu dentro de sua casa, ele nem iria precisar inventar muita coisa para justificar o meu assassinato.

Entrei no hall do prédio como quem já era intimo da família, fiz questão de cumprimentar o porteiro e pegar na sua mão para intimidar, subi até o 12º andar temendo que durante os instantes que ela foi me buscar o velho pudesse ter acordado, por sorte isso não aconteceu. Atravessei a sala nas pontas dos pés, entrei no quarto, ela se certificou de que ninguém tinha acordado e entrou. Não preciso dar detalhes da noite que passamos em claro, nos amando baixinho para não acordar ninguém, aproveitando o momento sem pensar em nada, nem de toda a paixão que rolou naquele quarto enquanto o cidade estava sitiada por marginais. No meio da guerra, nós nos entregamos um ao outro pela primeira vez.

Lembro ainda que sai logo depois do velho sair para comprar pão, correndo o risco de encontra-lo na esquina, no elevador ou qualquer coisa assim, mas a noite já tinha valido apena, mesmo que algo ruim acontecesse nos momentos seguintes. Tentei repetir o feito algum tempo depois, sem muito sucesso, acho que essas coisas só dão certo quando nos permitimos viver o momento com um pouco de alma.

Autor: @robsonpnx
Imagem: Anry’s

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Sobre Robson Almeida

Baiano radicado em São Paulo, Paulistano de coração | Diletante da Escrita | Efémero | Lascivo | Bucólico | Butequeiro | Blogueiro | Meio Intelectual | Meio de Esquerda | Gente Diferenciada...

3 comentários sobre “Cabelos vermelhos!

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