Encosta!

Pra quem mora no morro não é difícil ser abordado pela policia, uma vez que somos todos suspeitos, e até mesmo eu que tenho “cara de bom moço” não escapo dos meus enquadros…

Noite de sexta-feira, maio de 2006. Galera animada, todo mundo na beca pra ir a uma festa em Sorocaba, longe pra caramba eu sei, mas vamos lá! A expectativa da turma era tanta que começaram o esquenta no meio da tarde. No ponto de encontro de sempre, minha casa, os carros vão encostando, roupa nova, perfume importado, separa-se o dinheiro do pedágio, enche o tanque, fé em Deus e pé na tabua!

Nem bem saímos e uma viatura da ROTA já cola na traseira do nosso carro e anuncia, “Encosta!” os policiais iniciam os procedimentos de revista e interrogatório:

Você tem passagem?
— Não senhor;
Usa alguma droga?
— Não senhor;
Tem certeza?
Tenho senhor;
Nem um cigarrinho de maconha de vez em quando?
Não senhor;
Tem drogas sua ou de alguém no carro?
Não senhor;
Alguma arma ou munição?
Não senhor;
Estão indo pra onde?
Uma festa em Sorocaba!”

E então depois de repetir isso aos quatro policiais que estavam na barca, fomos liberados e demos continuidade ao nosso destino. Ao descer a rua principal do bairro com destino a avenida que da acesso para pegar a marginal pinheiros, novamente os faróis e sirenes acompanhados do anuncio, “Encosta!”, uma segunda abordagem se nem sair do bairro, dessa vez da Força Tática, estes um pouco mais grosseiros, talvez por medo, mas ainda assim grosseiros o bastante para percebermos seu despreparo. Um nova cena de interrogatório como a descrita acima para alegrar os zé povinho que por ali passavam, e mesmo dizendo que já havíamos sido abordados anteriormente eles realizaram uma nova revista no carro. Só depois fiquei sabendo que a segunda revista era por que os PMs da ROTA tinham deixado drogas dentro do carro para incriminar nossa turma! Mas um dos meninos viu e se livrou da falsa prova antes de sermos pegos!

Novamente liberados, mais uma vez tentamos seguir nosso destino, a essas alturas já estávamos bastante atrasados, cada abordagem durou em média 40min, esse é o tempo que a policia leva pra descobrir se você é ou não bandido, em média um assalto a bando dura 3min.

Continuando a viagem, demos uma paradinha para pegar a namorada de um dos integrantes de nossa caravana, agora eram 6 dentro do carro, um prato cheio pro próximo enquadro, mas fazer o que né. Marginal a dentro, depois pegamos a rodovia, e vem chegando o pedágio, pra evitar qualquer tipo de transtorno, resolvemos dar uma paradinha antes do pedágio, para que um dos integrantes da caravana entrasse no porta-malas, e passarmos despercebidos no pedágio, sem levarmos nenhuma multa. Adivinha qual dos idiotas no carro foi parar no porta-malas, claro que foi eu, o único menor de idade e de tamanho também.

Encostamos no acostamento eu entrei no porta-malas do Astra, ele se fechou, quando meu amigo deu com a chave na ignição ouvi um barulho enorme das sirenes e mais uma vez a ordem anuncia “Encosta!”. Os policiais desta vez em 7 viaturas, e mais 4 motos da ROCAM, fortemente armados abordaram com muita truculência todo mundo que estava no carro. Foi um tal de F-I-L-H-O-S-D-A-P-U-T-A pra lá D-E-S-G-R-A-Ç-A-D-O-S pra cá, e uma conversa de sequestro:

Vocês então sequestrando quem, cambada de F-I-L-H-O-S-D-A-P-U-T-A? – Diziam os Policiais.”

Os meninos tentavam explicar que não estavam sequestrando ninguém e só tinham colocado um amigo no porta-malas para passar no pedágio e não levar nenhuma multa. Mas, os PMs estavam mais loucos que o Batman, transtornados com a historia dos ataques do PCC, eles pensaram que nossa turma estava se preparando pra atacar alguma base, ou realmente sequestrando alguém, juntando isso com nossa burrice em querer driblar a lei, só podia dar num mico gigantesco no meio da rodovia! Os policiais se prepararam para abrir o porta-malas e me tirar lá de dentro, ouvi um dizer que se eu estivesse armado ou manifestasse alguma hostilidade iriam meter bala. O medo tomou conta de mim, na real só não me borrei todo por que na hora não estava pronta, um se aproximou e abriu o porta-malas, mas não deixou o tampão se erguer, outros dois posicionaram suas armar, uma metralhadora e uma escopeta, só depois ele deixou que o tampão de levantasse, outros dois de armas em punho me pegaram, um pela perna e outro pelo braço, e me arremessaram no meio da rodovia. Eu cai uns 4 metros a frente e logo um dos policiais colocou seu coturno no meu pescoço e me apontou uma calibre dose na cara! Clamei para que não atirassem em mim, eles então me revistaram, ou melhor quase me arrancaram a roupa toda no meio da rodovia. Os carros passavam devagar só pra olhar pra cara dos supostos marginais deitados em fila no asfalto molhado de cara no chão. Zé povinho é foda!

Depois de quase duas horas, fomos liberados, as roupas sujas, passamos pelo maior constrangimento de nossas vidas e ainda levamos uma bronca dos PMs por causa da nossa esperteza. Também pudera, durante os ataques do PCC, até soltar traques perto de viatura era ameaça, recuperamos nossas energias e partimos pra festa. Chegamos lá e nos tornamos o centro das atenções. Ninguém mais tinha sofrido três enquadros só pra chegar aquela festa, ninguém ali estava tão sujo quanto nós, e ninguém ali estava tão afim de tomar uma bier e brindar a liberdade.

Autor: @robsonpnx

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Sobre Robson Almeida

Baiano radicado em São Paulo, Paulistano de coração | Diletante da Escrita | Efémero | Lascivo | Bucólico | Butequeiro | Blogueiro | Meio Intelectual | Meio de Esquerda | Gente Diferenciada...

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