O Ladrão de cachecol

Muitos gaúchos, paulista e até esquimós se assustariam com o frio que faz no sul da Bahia durante o inverno, a caatinga é um ecossistema que só existe no Brasil, e em Vitoria da Conquista onde se passa essa historia ela é predominante, no verão é calor de dia e de noite, mas no inverno a diferença de temperatura entre o dia e a noite pode ultrapassar 20°C.

Foi em meados de um mês de agosto, o Ladrão de Cachecol e seu amigo, um Profeta, partiram em uma missão à Bahia de todos os Santos. A mãe do Profeta estava muito doente e ele já não há via a alguns anos, seu companheiro o Ladrão só se decidiu pela viagem na ultima hora, foi de boêmio que é, só pra não perder o passeio e toda a beleza do lugar. Estavam em ano letivo e ambos ainda estavam no colégio, mesmo assim, não deixariam de viver mais aquela aventura.

Ao chegar a cidade os dois foram direto ao hospital visitar a mãe do Profeta, e depois saíram a vagar pela cidade reencontrando velhos amigos e familiares! É realmente surreal ver o mundo com os olhos de um jovem de 17 anos, passear por ladeiras de bairros antigos como o Guarani, ir ao mercado municipal, se encantar com os sabores, cores e amores que só a Bahia — independente de qual seja à cidade — tem a oferecer. Soltos naquela terra de belas e simpáticas mulheres, tantas bocas, tantos corpos, tudo que eles mais queriam… Em meio a tantas experiências, tantas historias sendo vivenciadas, muitos falavam numa moça com trejeitos de princesa, moça essa que morava no alto de uma ladeira, uma baiana diferente de todas as outras, ela tinha uma beleza virginal.

O Profeta que conhecia muito bem seu companheiro, disse as palavras magicas antes mesmo dos dois se encontrarem:

Se o Ladrão ficar com essa mina, ele volta pra São Paulo apaixonado!

Não é atoa que nessa historia ele ganhou a alcunha de Profeta, sua profecia iria se tornar realidade em breve…

Depois de uma noite inteira de espera, eis que surge ela. Aquela bela baiana, de olhos castanhos, pele branca, cabelos negros, seios fartos, lábios carnudos, sorriso tentador, rosto bem desenhado e porte de princesa. Ainda mais bonita do que haviam descrito. Ela nem bem se aproximou da roda e o Ladrão mirando em seus olhos disse:

— Estava te esperando!

As palavras tem uma força que talvez ele desconhecesse… Ela o indagou logo em seguida, como poderia estar a sua espera se nem se conheciam, e ele disse a ela que todos ali a esperavam para irem comer algo em algum lugar, esperavam por sua companhia. Ela disse que antes de aceitar precisava consultar sua mãe, e ao voltar a resposta foi NÃO. Mesmo que a resposta não tenha os aproximado, o Ladrão sentiu o seu coração saltar dentro do peito, depois daquele instante, daquela breve conversa, daqueles olhares que teimavam em se cruzar algo nele mudaria para sempre. No dia seguinte ele acordou com um desejo enorme de revê-lá o quanto antes, um desejo que ele nunca havia sentido antes. Assim como por encanto o Ladrão viu seus sentidos buscarem uma só direção, a presença daquela baiana, e sua beleza virginal.

Horas mais tarde e ele já estava a sua espera, sentado na sala de alguém que conheciam em comum, sem querer muito, só pelo prazer de conversarem mais um pouco. Ela apareceu com o tempo curto, mas antes de seguir lhe convidou para uma procissão que aconteceria no dia seguinte em homenagem a padroeira da cidade, ele é claro topou na hora.

No dia seguinte ele andou uma procissão inteira ao lado dela, assistiu a missa, e depois saíram pra comeram juntos, mais tarde ficaram de papo no quintal da casa dela. Ele contou pra ela da vida bagunçada que vivia, o amor pelos amigos, o descaso com o colégio. Ela lhe falou do curso pré-vestibular que estava fazendo, do sonho de se casar com um amor verdadeiro, de ter filhos gêmeos, falou também do ex que há tinha traído. Os dois passaram algumas longas horas admiraram o céu repleto de estrelas, ele já não conseguia todo o encanto que tinha por ela.

Antes de ir embora o inesperado mais que esperado aconteceu, um beijo como nenhum outro que o Ladrão tenha provado antes, ele se aproximou levemente, com todo o pudor pra não assusta-lá, investiu, mas ela virou o rosto, ele disse que a queria, e só então ela cedeu. Ele manteve-se distante o bastante para que ela não percebesse sua excitação de adolescente. Com toda a leveza suas bocas agora se tocavam, os lábios sedosos da baiana o enfeitiçaram, sua boca era molhada e macia como nenhum outra que ele tinha beijado, beijava com vontade demonstrando todo o calor no seu beijo. Aos poucos toda aquela leveza ganhou intensidade, o seu coração palpitava, e cada palpitar era o mesmo que dizer, isso é o amor, o amor, o amor… Um amor a primeira vista, sem medida nem tamanho nasceu ali!

O combinado antes da viagem era passar uma semana e depois voltar pra Sampa, mas acontece na cidade o Festival de Inverno da Bahia, logo a Bahia, conhecida pelo calor e clima de verão o ano todo tem um festival de inverno. Os dois então decidiram adiaram a volta, iriam assistir ao primeiro dia de Festival que seria numa sexta-feira e viajariam no sábado. O Ladrão combinou de ir junto com a baiana já que este possivelmente seria o primeiro e único encontro dos dois.

cachecol

Na noite do Festival houve um show do Rappa, a banda predileta do Ladrão que a baiana também gostava muito, ela estava ainda mais linda, vestida de preto, decote aparente, explorando a sua sensualidade e seus atributos mais visíveis. Ele levou pra ela uma rosa, e naquela rosa todos os desejos de viver aquela paixão! Era uma noite fria, a baiana usava um cachecol para espantar o inverno. Durante o show para que os dois não se desgrudassem no meio da multidão ela os amarrou com as pontas do cachecol, um em cada extremidade —  Neste momento algum querubim safado passou e disse amém — Durante toda a noite os dois passearam, curtiram bastante e até tiveram aulas de tango no Festival! Ao voltar pra casa os dois ainda tinha animo para conversar, passaram a madrugada aos beijos, abraços e muitas descobertas, falaram de musica, cinema, relacionamentos. Os dois tinham gostos em comum, gostavam de Roupa Nova, literatura e muitas outras coisas… Ele só se foi quando o sol já se anunciava no horizonte, temendo a chegada do pai dela. Roubou dela o cachecol, e ela tirou dele a paz.

Então o Ladrão partiu, levou consigo as lembranças daquela baiana, o cachecol aquecia seu nas noites frias do inverno paulistano, mas não seu coração. Nascia assim o amor na sua forma mais subliminar, do jeito mais puro, o amor a distancia, esse amor que é quase platônico, onde a confiança esta em sentir, pois a única coisa que a distancia permite é sentir…

Autor: @robsonpnx

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Sobre Robson Almeida

Baiano radicado em São Paulo, Paulistano de coração | Diletante da Escrita | Efémero | Lascivo | Bucólico | Butequeiro | Blogueiro | Meio Intelectual | Meio de Esquerda | Gente Diferenciada...

3 comentários sobre “O Ladrão de cachecol

  1. SENSACIONAL!!! Lindo conto, linda história…
    Sem dúvidas amores como este nasce a todo instante… onde “cachecois” são papeis de bala, guardanados, entradas do cinema…Viran lembranças.

    “…pois a única coisa que a distancia permite é sentir…”

    Linda frase!!!

    Parabéns Robson.

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