IRAÊ

Essa historia é uma reprodução de um conto que minha bisavó me contava quando eu era ainda muito pequeno, ou pelo menos o que eu me lembro dela contar, se passa na Bahia. E deve ser muito antigo, pelo que ela me contava, deve ter escutado ainda quando era criança, pois é de um tempo logo depois da abolição do escravos. Tudo se da mais ou menos assim:

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Iraê que na língua Yorubá significa Estrela, era uma moça filha de ex-escravos que vivia em Salvador na Bahia de todos os Santos, sua sina era vender frutas para tentar levar a vida e ganhar seu sustento. Dona de uma beleza única Iraê, fazia Senhores Feudais, Coronéis, Duques e Viajantes torcerem o pescoço quando descia as ladeiras do Bom Fim com sua cesta de frutas na cabeça requebrando os quadris para se equilibrar nas ruas de paralelepípedo… Sua pele negra refletia o Sol da Bahia e a fazia brilhar como uma Pérola Negra, seus lábios eram carnudos, vermelhos e vivos como a pimenta malagueta, o nariz afinado denunciava que algum senhor tinha feito algazarra na senzala onde seus pais eram escravos, cabelo de cachos definidos, cintura fina, pernas torneadas das ladeiras do morro, dorso largo, seios fartos, bunda de mulata e muque de pião… seu olhar brilhava como seu nome, como uma Estrela!

Zé Abdala era um Mercadante Turco, que vinha a Salvador periodicamente trazer e comprar mantimentos, atravessava o Atlântico abordo de seu navio levava nosso café, açúcar, cacau, tabaco entre outras coisas mais… Era um homem distinto, de pele bronzeada e cabelos pretos e lisos, alto e com sorriso largo, lábios finos e queixo protuberante, tinha músculos fortes e definidos! Uma mulher em cada porto era sua sina, o coração de marinheiro é livre como o vento que vem do mar, e assim também era o espirito de Zé Abdala.

Rodeada de crianças que cantavam em coro e batiam palmas lhe pedindo frutas, ela partiu descendo do alto das ladeiras do Bom Fim, ele a avistou e fixou o olhar em suas coxas passando por todo seu corpo.  Quando ela passou por ele e seus olhares se cruzaram, ela então cedera a estripulia daquelas crianças, e começou a dançar, valsando como valsa uma criança, no meio do circulo que eles faziam a sua volta, numa tarde de forte Sol. Lambuzada de manga que caíra da cesta, o seu vestido branco e bem cintado agora já transparecia seu corpo moreno. Vendo aquela miragem passar por si, livre como as aves que voam no ar, ele a quis, e por querer sem saber por que ele a seguiu, se aproximou, e ela o puxou para dançar consigo. Nas janelas, bares e cafés… todos paravam para assistir aquele casal que rodopiava cercados de crianças, eles seguiram na direção do cais do porto, antes da tarde cair ela deu as crianças sua cesta, e se entregou nos braços daquele marinheiro! Foram dançando pelas ruas da cidade baixa, passando em frente ao mercado, próximos aos navios ancorados, onde alguns conhecidos gritavam seu nome. Num hotel não muito distante onde ele estava hospedado, foi para lá que eles seguiram, fizeram amor do findar da tarde, até a chegada do alvorecer!

Antes que ele pudesse acordar, ela se vestiu para partir. Conhecia bem a sina dos homens do mar! Quando acordou e não a viu Zé se perguntou se aquilo havia mesmo acontecido, vestiu-se e saio a andar pelas ruas, procurando por uma moça com suas características, perguntou no mercado e alguns lhe disseram que ela morava na cidade alta, num morro afastado do centro, e para lá foi o Marinheiro Mercadante a procurar, pediu ajuda as crianças que lhe levaram até a casa daquela mulher generosa que de vez em quando distribuía frutas a eles. Ele a avistou no tanque, lavava roupas e a sua blusa caída deixava a mostra o bico do seio, algo inocente que o deixou excitado. Lhe falou seu nome, e disse que aquela noite havia sido magica, perguntou o nome dela, conversaram e ele partiu, tinha que voltar para o outro continente, mas não a esqueceria, e lhe pediu para espera-lo!

Já no barco Zé Abdala olhava para o céu para se lembrar de Iraê, e Iraê olhava para o mar para se lembrar de Zé Abdala. Ele varreu o velho continente caçando presentes para levar aquela moça que agora tinha domado seu coração antes alado, do lado de cá a noite de amor dos dois tinha deixado para ela um presente em seu ventre. Ele voltou meses depois, foi direto a sua casa, levando consigo muitos presentes e a intenção de largar o mar só para viver próximo a ela. Se surpreendeu ao reparar sua barriga saliente, seu coração saltou no peito e ele soube naquele momento que o fruto daquele ventre também era seu. Abandou o mar, e abriu naquela cidade uma mercearia, casaram-se e viveram juntos a mais quente das paixões da Bahia, tiveram uma única filha a quem deram o nome de Isabel em homenagem a princesa que libertou os escravos…

Gosto de imaginar que daquela barriga nasceu a mãe de minha bisavó, que lhe contou esta historia sem muitos detalhes dos que eu imaginei aqui, mas marcou na memoria da família como nossos antepassados se conheceram…”

Autor: @robsonpnx
Imagem: Eduardo

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Sobre Robson Almeida

Baiano radicado em São Paulo, Paulistano de coração | Diletante da Escrita | Efémero | Lascivo | Bucólico | Butequeiro | Blogueiro | Meio Intelectual | Meio de Esquerda | Gente Diferenciada...

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