Fé em Deus…

— Você tem fé em Deus?

A pergunta veio direta. Jogada na cara como coice, de repente. Pararam, até sem querer, pensantes…

— Olha, tenho não.

Ele precisava se explicar:

— Não tenho mesmo não. Lembra daquela encrenca que tive com aqueles filhos da puta que dominavam lá nos prédios do CDHU por causa de namorada?

— Fiquei sabendo, parece que eles quase te mataram, você ficou um tempo hospitalizado, não foi?

— Pois é. Eu já estava baleado, todo arrebentado de pauladas, amarrado e amordaçado como um animal debaixo de uma cama. Eles esperavam o carro que um deles fora buscar, para me levar para o mato e liquidar comigo. Não queriam sujar a casa com meu sangue. Eles falavam em minha frente, qual eu já não existisse e ali estivesse somente um cadáver que eles iriam “desovar”. Já estava até escalado quem me daria os tiros fatais. Era um sujeito com jeito de índio e olhar esbugalhado. Ele me olhava e sorria como um meigo de débil mental. Percebi depois que naquele meio sorriso ele expressava o prazer que teria em me matar. Era como se fizesse aquilo todos os dias e precisasse de algum prazer para continuar fazendo. Eu já estava morto.

— Mas como, você esta aqui agora…

— Nessa hora fiz a mais sincera oração de minha vida. Conversei com Deus. Lembra daquela música do Antônio Marcos? Pois é, lembrei de todas palhaçadas de minha vida, aquilo passou como um raio, em décimos de segundos. Pedi por minha vida. Falei de meus filhos pequenos que careciam de mim para cria-los, chorei todas as dores de meus erros e defeitos. Ali realmente acreditei que fosse possível o perdão e uma intervenção imediata. Mas nada, Ele não interveio, me deixou ali à morte…

— Mas você…

— Sei, eu estou aqui, não é? Mas não foi graças a Deus não. Graças aos policiais que me resgataram. Se não é a viatura da polícia chegar naquela hora, estaria morto a estas horas…

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— Pois é, eu também penso como você.

Levanta-se da mesa do bar e diz, Bernardo.

— Meu, a polícia me pegou o mês passado, me confundindo com o Joca lá da “lojinha”. Eu dizia que não era o Joca e eles mostravam a foto: parecia de fato comigo. Bateram sem dó. Tomei uma coronhada com uma espingarda, olha aqui, ó, ó, ó… O sangue esguichou e eu cai como uma abóbora madura. Fui chutado vezes incontáveis e tomei coronhadas na cara e na cabeça. Só então, comigo ali já caído e cheio de sangue, pegaram minha carteira que havia caído do bolso e viram, pela identidade, que eu não era o Joca. Pela quantidade de sangue, acho que eles acharam que já haviam acabado comigo. Jogaram dentro da viatura e iam saindo, creio que para acabar de matar e jogar no mato.

— Mas você também esta aqui…

— Nessa hora apelei para Deus e todos os santos. Rezei todas as rezas que sabia desde criança, chorei pedindo que preservassem minha vida, eu não podia morrer ainda. E nada. Fiquei ali abandonado, minando sangue, para morrer…

— Mas…

— Então, se não é a Daniele… eu já estaria morto. Ela me salvou. Viu quando eles me abordando na rua. Correu em minha casa e trouxe minha mãe, os vizinhos e as crianças. Foram para cima da viatura quando eles estavam saindo. Assustaram os policiais e os obrigaram a me levar para o Hospital Geral. Os policiais disseram que se não é ela, eu já era. É a Daniele que agradeço o fato de estar vivo agora.

Terminou assim aquele insólido diálogo sobre a não-fé-em-Deus naquela mesa de bar…

Autor: Luiz Mendes

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Sobre Robson Almeida

Baiano radicado em São Paulo, Paulistano de coração | Diletante da Escrita | Efémero | Lascivo | Bucólico | Butequeiro | Blogueiro | Meio Intelectual | Meio de Esquerda | Gente Diferenciada...

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