Um eterno erê…

Quando pequeno de pés no chão, descobri que somos o país do futebol porque uma única bola — não importa de quem seja — é capaz de fazer a alegria de uma rua inteiro, e nessa hora chinelo só serve mesmo pra marcar o gol. não importa quem ganhou presente ou não. Mas já houve tempo de passarmos vários dias sem jogar futebol porque simplesmente ninguém tinha uma bola pra jogar. Uma mísera bola. Para quem não sabe, o futebol também é um esconderijo de crianças tristes e solitárias. Descalços ou não, uns chutam a bola, outros, a vida.

Naquele tempo já existia o bullying, só que não precisavam convocar o diretor, o orientador pedagógico, os pais, as testemunhas, o psicólogo, essa doideira toda. Tinha sujeito que apanhava, apanhava, até que um dia, ele batia, batia. Tudo era resolvido entre nós, tínhamos de saber conversar, negociar, ganhar e perder, levar e dar de volta, enfim, aprender a viver e se virar.

Vó curava os dias frios e tristes com bolinhos de chuva e esticava as manhãs leves com cocada de coco queimado. Quem tinha bicicleta, os afortunados, emprestavam-na pra rua inteira brincar, e cair dela dava em boas risadas, de vez em quando em gesso e hospital; perder um dente, era motivo pro geladinho da vó.

E para dor de saudade, vó? Ela sabia que, para isso, não havia receita, só o silêncio do tempo ajuda a amenizar…

As minhas férias na fazenda no interior da Bahia serão sempre lembradas com nostalgia entre meus primos. Todas as noites, lá pelas tantas, uma batida surda na porta da casa denunciava um visitante. Ao abrir, um sapo cururu o fitava desafiador. Vô, sem esboçar emoção, acendia dois cigarros de palha. Fumavam em silêncio. Então, o anfíbio, após discreta reverência com a cabeça, tomava seu rumo. Nunca questionou os motivos do animal. Nem vice-versa. Depois de uma semana sem aparecer, o sapo foi encontrado morto. Causa mortis: enfisema. Nessa noite, ele fumou seu melhor charuto na soleira da porta.

Aos sábados, depois da roda de samba, um Bem-te-vi vinha bicar as cervejas mal-tomadas do terreiro do Messias. Pousava na beira do copo, triscava um tiquinho e corria de vergonha – ou culpa. Mais um tanto de tocaia, tomava um gole grande e se refugiava no varal. Até que perdia o respeito pelos presentes e assentava-se, saindo de lá só quando se desse por satisfeito. No dia em que tocaram “Nervos de Aço”, o passarinho foi visto cochilando nas telhas. Bêbado, desistiu de achar o caminho de casa.

Domingo era dia de ir a granja, escolhíamos o almoço ainda vivo, e eu carregava a sacola até em casa, podia sentir o calor do frango, o tempero vinha do quintal, na horta tinha de tudo, manjericão, coentro, salsinha, cebolinha e tomatinho cereja…

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Setembro trazia a primavera, junto com os doces de Cosme e Damião, paçoquinha amor e doce de abobora em forma de coração eram a pedida, mas o meu predileto mesmo era teta de nega… Seu João tinha os melhores doces sempre ao alcance das mãos. Tia Sonia, fazia o melhor bolo de chocolate de porta de colégio do mundo. No Seu Chico, a gente comprava linha e pipa, pião e bolinha de gude… Uma brincadeira pra cada época do ano…

Naquele tempo as pessoas se relacionavam com um pouco mais de amizade, a caderneta do fiado ficava em cima do balcão, não tinha essa higienização que o sistema faz questão de promover, não havia esse afastamento social que se tem hoje, onde a figura do tiozinho do bar, do tiozinho do cabelereiro vai sendo trocada pelo atendimento padrão, impessoal e rápido. Estamos nos afastando daquilo que mais nos deixa com a sensação de que estamos de fato vivos, o convívio com o outro. A única coisa que não devia mudar são os valores, isso devia ser eterno… Sabe o que era bom mesmo naquele tempo? É que nós éramos apenas crianças, e quando se é criança "aquele tempo era bom" em qualquer lugar.

Respeite as crianças, todas elas, inclusive a que existe dentro de você… (SV)

Autor: @robsonpnx
Imagem: Titi

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Sobre Robson Almeida

Baiano radicado em São Paulo, Paulistano de coração | Diletante da Escrita | Efémero | Lascivo | Bucólico | Butequeiro | Blogueiro | Meio Intelectual | Meio de Esquerda | Gente Diferenciada...

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