Não aguento mais…

Eu espero mesmo não estar enganado, e ter vivido além dessa em que estou  outras vidas mais, e ter ainda outras mais pra viver. Sei que para os agnósticos que não acreditam em reencarnação, espiritismo, vida após a morte, sim, ela é uma só. O que é um alento e um tormento, traz paz na mesma intensidade que aflige. Eu prefiro seguir assim, sem pressa, sabendo que ainda tenho muito pra viver, e o que eu não viver nessa ei de viver numa próxima.

Domingo abro os olhos, ainda deitado ouço a chuva lá fora, nenhum compromisso agendado, e um dia inteiro pra ficar com a bunda no sofá, mas e se a vida for uma só, vou deixar que ela passe assim? São Paulo tem mais de 200 teatros, 200 cinemas, milhares de estabelecimentos gastronômicos, exposições, mas uma chuva rala e um frio fora de época determinaram que eu deveria ficar em casa. Mas a vida não é uma só? E mesmo que fosse. Pra que encarar todo esse cinza da cidade? Pra ligar no note e escrever, ou reproduzir minhas ideias nas redes sociais? Nada adianta, nada. E como meu hobby é ver o mal do mundo, um dia a depressão bate né.

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Isso tudo porque eu não aguento mais…

Não aguento mais ver a cara do Lula, o homem que não sabe de nada, talvez nem conheça a Rosemary; não aguento mais ver o Sarney mandando no País, transformando-nos num grande "Maranhão", com o PT no bolso do jaquetão de teflon, enquanto professores e trabalhadores braçais discutem para ver quem é que vai salvar o país, “a educação ou a construção civil”, com o Estado loteado de desempregados; não suporto a dúvida impotente dos tucanos sem projetos para o país; não aguento saber que o Genuíno condenado aguarda a voz de prisão sentado numa cadeira de deputado; não aguento mais políticos se defendendo de roubalheira falando em "honra ilibada", conselhos de ética formado por ladrões, suplentes cabeludos e suplentes carecas ocultando os crimes. Odeio a dúvida de Dilma, querendo fazer uma política modernizante, mas batendo cabeça para o PT, esse partido peronista de direita; Maluf negando nossa existência, eternamente impune, não aguento mais dinossauros da politica que conseguem censurar a imprensa que os critica; Não aguento mais ver imagens do Rio São Francisco com obras paradas e secas sem fim, o trem-bala de bilhões atropelando escolas e hospitais falidos, filas de doentes no SUS, declarações de pobres conformados com sua desgraça na TV, pedintes com receitas médicas esfarrapadas, pedem para completar a passagem (até a esquina), pedem para o lanche (só que não aceitam o lanche), pedem porque ‘acabaram de ser assaltados’, pedem para pagar o pastel na feira, ou o caldo de cana, tremo ao ver a República tratada no passado, nostalgias com currais eleitorais, tortura de homens da lei.

Não aguento mais contar quantos foram assassinados por dia na minha cidade, com secretários de segurança falando em "forças-tarefas" diante de presídios que nem conseguem bloquear celulares; Não aguento mais ver balas perdidas sempre acertando em crianças, ônibus pegando fogo da Brasilândia à Heliópolis; Não quero mais ouvir falar de "globalização", enquanto meninos miseráveis fazem malabarismo nos sinais de trânsito; não aguento as chuvas em São Paulo seus alagamentos, e os desabamentos do Rio, enquanto a Igreja Universal constrói templos de mármore com dinheiro arrancado dos ignorantes sem pagar Imposto de Renda; Não aguento mais a CET que só faz multar, o transito só faz piorar, não aguento mais ter de pagar ao manobrista que largará meu carro na esquina, toda vez que saio tenho de pagar ao ao flanelinha, perito em extorquir – Pague a quem se aproximar, ou na volta encontrará a lataria riscada, pneus vazios; Não aguento mais ver ruas, asfaltadas porcamente, para que se asfalte e ‘reasfalte’ outra vez (superfaturando) ao desviar do buraco da esquerda, você cai no buraco do centro, isso quando não cai na cratera à direita; Não aguento mais policiais fazendo corpo mole frente a ondas de violência, ou extorquindo motoristas para não fazer o teste do bafômetro, caixas de banco abertos com dinamite, não aguento mais o medo de levar um tiro num sequestro relâmpago mesmo que eu não resista. Andamos com vidros fechados, portas travadas, vivemos atrás de grades, protegidos por jaulas, câmeras, alarmes, cães, seguranças, não aguento ver que a pior violência é nosso convívio cético com a violência, o mal banalizado e o bem como um charme burguês.

Não dá mais para ouvir quantos campos de futebol foram destruídos por mês nas queimadas da Amazônia, enquanto ecochatos correm nus na Europa, fazendo ridículos protestos contra o efeito estufa; polêmicas sobre casamento gay, odeio a pedofilia perdoada na Igreja, homens, pais de família discutindo irrelevâncias, buscando ideais como a bunda perfeita, bundas ambiciosas querendo subir na vida, bundas com vida própria, mais importantes que suas donas, odeio recordes sexuais, próteses de silicone, pênis voadores, sucesso sem trabalho, a troca do mérito pela fama, não suporto mais anúncio de cerveja com louras burras, abomino mulheres que se dividem entre piriguetes e santinhas do pau oco, repugnam-me os sorrisos luminosos de celebridades bregas, notícias sobre quem come quem, horroriza-me sermos um bando de patetas de consumistas, rebolando em shoppings, enquanto os homens-bomba explodem no Oriente e Ocidente, desovando cadáveres na Palestina e em Ramos.

E assim meu domingo se foi, passei mais de 14 horas em frente da TV. Não aprendi nada novo, não fiz absolutamente nada, assisti o Esquenta, e guardei todas essa linhas na minha cabeça pra colocar pra fora durante a semana. Me pergunto se ocupei bem o meu dia ou o desperdicei sem levar em conta a raridade que é a vida. Sei lá. Como saber vive-la se não há jurisprudência ou manuais? Há tantas coisas que me assolam e eu não posso por fim nelas, dai me lembrei da musica do Cole Porter que a letra diz assim: "Conflicting questions rise around my brain/ Should I order cyanide or order champagne?" ("Questões conflitantes rondam minha cabeça/ devo pedir cianureto ou champanha?") Assim, a culpa de não fazer nada num domingo chuvoso não estraga o resto da semana.

Autor: @robsonpnx

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Sobre Robson Almeida

Baiano radicado em São Paulo, Paulistano de coração | Diletante da Escrita | Efémero | Lascivo | Bucólico | Butequeiro | Blogueiro | Meio Intelectual | Meio de Esquerda | Gente Diferenciada...

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