Caro Governador

Olá, Sr. Governador Geraldo Alckmin,

gostaria de compartilhar um pouco de vida com o senhor. Um pouco da vida que levo na cidade de São Paulo. Todos os dias por volta das 17h peço, ou melhor, quase suplico a minha mãe que mude de canal, que não assista a programas que mostram exaustivamente assaltos, sequestros, estupros, assassinatos, desaparecimentos. Uso como argumento apenas que aquilo não faz bem, que nos deixa cada vez mais impressionados, que é por causa de programas como esse que ela se preocupa tanto se não atendemos a uma de suas ligações.

 Hoje me dei conta de que não são os programas, ela e todos os pais estão certos em se preocupar demais quando seus filhos estão fora de casa, porque mesmo dentro dela não somos capazes de garantir segurança plena.

 Entendo, governador, que se chegou até esse ponto do texto, o senhor deve estar se perguntando aonde quero chegar. Eu não sei exatamente aonde quero chegar. Na casa dos meus 25 anos de vida, eu ainda não sei aonde quero chegar. Mas eu sei que quero chegar, quero continuar, assim como quero que todos os meus parentes e amigos também continuem e cheguem aonde querem chegar. Entende o que quero dizer, senhor?

 Ao longo dessas duas décadas e meia fui assaltada três vezes. No primeiro deles, sob o efeito do nervosismo, eu gargalhava e chorava compulsivamente. Passei meses sem querer sair de casa. No último, cheguei a me machucar, passei dias com o pé imobilizado, passei a sentir muita raiva, ódio, até. O que não é bom pra alma ou pra sociedade. A raiva por esses atos só traz à superfície seres revoltados.

 Mas somente hoje, governador, com um soco no estômago, um tapa na cara, um balde de água fria na cabeça e todos os demais clichês percebi o quão insignificante tem sido a Segurança Pública da cidade, do estado de São Paulo. Eu me orgulhava da cidade em que eu vivo, hoje não mais. Hoje sinto um medo e uma pena tremenda dessa que um dia foi a cidade dos sonhos dos meus pais.

 Não sei se o senhor tem conhecimento, mas lhe darei algumas informações sobre a São Paulo atual. Os bons são exterminados a cada esquina, a cada semáforo, a cada vinda do trabalho, a cada saída da faculdade, a cada chegada em casa. A cada compra no supermercado, a cada saída do banco, a cada compra de um novo carro, a cada passada em uma nova moto.

 Não sei também se o senhor já passou por alguma dessas situações, governador. Mas devo lhe dizer que viver com medo é o inferno. Ter de decorar o rosto do carteiro, viver trancada a sete chaves e mais alguns alarmes extras, não poder usar um relógio bacana, pensar três vezes antes de comprar o melhor carro que você pode comprar por medo é desesperador. E quando falo do medo, não é do medo de levar nossos bens materiais, não. Mas levar o que temos de mais valioso: o tempo. O nosso tempo em vida. O tempo de quem amamos, o tempo dos sonhos e das realizações.

 Tenho absoluta certeza que o senhor já sofreu uma perda, senhor. Seja ela pelo esgotamento do tempo, por alguma enfermidade ou até por alguns dos casos acima. Dói, não é mesmo? Uma dor que nunca é superada, mas que, do meu ponto de vista, nas duas primeiras situações pode ser amenizada. Porque não é possível, não deve ser aceita a possibilidade de que um ser humano tire a vida de outro.

 Na virada do 15 para 16 de janeiro de 2013, pela primeira vez perdi alguém próximo numa tentativa de assalto. Não estou sentindo a dor da mãe desse jovem ou da namorada de sete anos. Não ousaria dizer que estou sofrendo tanto quanto essa família, mas, sim, sofro por eles.

 Não moro num bairro ruim, ele não está nas estatísticas dos mais perigosos, no entanto, a violência e a sensação de que seremos os próximos chegam cada dia mais perto. Dos últimos “incidentes”, lembro claramente da tentativa de assalto a dois bancos, dois baleados em semáforos, um corpo de um professor encontrado, uma casa invadida, um carro levado na saída do supermercado, um assalto na saída do banco, e ontem, um casal foi baleado antes mesmo que pudessem entregar o “objeto de desejo” da peste que toma conta de São Paulo. O jovem não sobreviveu.

 Não há mais distinção de classes sociais, somos todos alvos, alvos fáceis e frágeis. A pergunta que fica, governador, é: até quando? Ainda há salvação? A Segurança Pública pode nos oferecer algo além da insegurança? Os senhores têm trabalhado para isso ou devemos apenas ficar aqui esperando a nossa vez?

Muito obrigada,

Fernanda de Lima

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Fernanda é jornalista, colunista do site Donas da Bola e idealizadora do Projeto Blush.

Mais sobre ela aqui ó (http://about.me/fernandadelima).

Postado por Helô

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