João. Talvez seja esse o nome dele

Todos os dias eu saía pra trabalhar no mesmo horário, pegava o ônibus e olhava o mesmo menino deitado na rua. Ele estava sempre sujo. Seus pés estavam pretos. Mal dava pra ver as unhas. Encolhido, tentava se esquivar do frio da manhã. Guardava as pernas dentro da camiseta larga e desbotada, como se fosse seu casulo. O via todos os dias.
Certa fez ele falou comigo. “Oh tio, me descola uma moeda aí?” Eu menti pra ele, disse que não tinha nenhuma moeda. Na verdade, eu não queria dar. Mas fiquei pensando nele depois. Deveria ter dado aquela moeda. Acho que ele ouviu o barulho do níquel no meu bolso.
No outro dia a mesma coisa. Ele pediu, eu neguei. Foi então que tive uma ideia: entrevistar o garoto. Saber como ele chegou aquele estado. Como era sua vida, etc. Em troca, daria alguns trocados a ele.
No outro dia saí de casa meia-hora mais cedo. Fiz o caminho habitual até o ponto de ônibus, mas ao invés de ir ao ponto, parei antes pra conversar com o guri.
Mal me aproximei e ele já me pediu uma moeda. “Te dou R$5, mas só se bater um papo comigo, topa?”, eu disse. Ele, desconfiado, perguntou se eu era da polícia ou queria levá-lo para algum orfanato. “Só quero conversar, saber um pouco da sua história”, respondi.
Então ele me contou que não sabe onde nasceu e desde que se recorda, mora na rua. “Lembro de pouca coisa de quando era pivete. Só lembro que morava num barraco de tábua, perto do centro. E brincava com pedra e pedaço de madeira”. Ele não devia ter mais de 12 anos, mas já tinha ficado bêbado várias vezes. Fumado crack, cheirado cola, roubado. “Nunca vi meu pai e fazem mais de ano que não vejo minha mãe, nem quero ver. Essas marcas na (minha) bochecha foi ela que fez com garfo. Apanhava direto. De todo mundo. Por isso caí fora.”
Disse que levou dias pra se acostumar a viver sozinho. E começou há trocar o dia pela noite pra fugir dos espancamentos. Apanhou, mas também bateu. Roubou. “Mas ainda roubo, às vezes. Preciso comer, né tio? Vejo playboy dando mole com celular ou relógio caro, pego mesmo. Foda é que depois os nego da mó miséria pelo bagulho.”
Nunca foi pra escola. Só aprendeu o que a rua o ensinou. Virou homem muito rápido. Mas ainda mantinha a infantilidade no riso fácil, apesar da realidade difícil. “Não adianta ficar chorando, né tio? Tem que correr atrás, com fé em Deus.”
E assim foi acabando meu papo rápido com o garoto que me pedia moeda. Depois disso, nunca mais o vi. Deve ter ficado com medo que eu chamasse o juizado de menores ou foi gastar a nota de R$5 que dei e se instalou por lá. Enfim, espero que meu pessimismo fisiológico esteja errado e que esse guri esteja bem e se não for querer muito, feliz.

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2 comentários sobre “João. Talvez seja esse o nome dele

  1. Cara,

    Não da pra acreditar que você comprou uma historia triste e veridica de um garoto de rua e ainda contou ela num blog. Ter amizade com alguém que mora na rua, ou até mesmo uma convivencia mais simplista do bom dia, boa tarde e boa noite não deveria ser algo fora do normal, algo pra ser contado assim, como se você estivesse fazendo algo extraordinário.

    Já pensou em procurar por ele e fazer mais do que uns trocados?

  2. Fica tranquilo, meu caro. É uma história fictícia. Apesar de ser a realidade de muitos.
    Obrigado por ter lido e comentado.

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