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Cocaine is aspirin for the rich!

Seguindo uma dica do poeta Sergio Vaz, assisti estes dias a um documentário sobre a vida e morte de Pablo Escobar, o maior traficante de cocaína do mundo dos anos 70 até sua morte. A historia de Escobar é toda contada por seu filho Sebastían Marroquín (Juan Pablo), ele Mudou de nome após a morte do pai para proteger sua integridade. No documentário ele conta como foi a ascensão de seu pai no mundo do crime e todas as suas extravagancias.

Escobar nasceu em Rio Negro, mudou para Medellín na década de 60, e nos anos 70 iniciou o que viria a ser a mais promissora carreira criminosa que o mundo já viu. Escobar havia descoberto a formula do dinheiro, durante os anos mais prósperos seu cartel chegou a faturar 1 milhão por dia de seus revendedores. Na década de 80, Escobar já era conhecido internacionalmente, seus negocias se espalhavam por México, Porto Rico, República Dominicana, Estados Unidos e há quem diga que chegou até a Ásia. Na sua folha de pagamento havia incontáveis oficiais do Governo, Juízes, Promotores, Policiais, e Políticos. Escobar mantinha uma lei em seus negócios conhecida como “la plata o plomo” (Dinheiro ou Chumbo), aqueles que não aceitassem seu suborno eram assassinados. Escobar foi o responsável pela morte de três candidatos à presidência da Colômbia, pela explosão do voo Avianca 203 e do prédio de segurança de Bogotá em 1989. Alguns analistas acreditam que ele estava por trás do incidente na Suprema Corte Colombiana em 1985 que resultou no assassinato de metade dos juízes da corte pelas guerrilhas de esquerda. O Cartel de Medellín também esteve envolvido numa sangrenta guerra pelo controle do tráfico com o Cartel de Cali durante quase toda a sua existência. Dizem que sua crueldade era tanta que Pablo mandava cartas para suas vítimas, convidando-as para seus respectivos enterros, e seus capatazes as executavam precisamente na data marcada para o funeral.

No inicio dos anos 90 o Cartel de Medellín controlava 80% do mercado mundial de cocaína. A organização tinha aviões, lanchas e veículos caros, além de vastas propriedades e terras que eram controladas por Escobar, uma delas mais parecia uma arca de Noé, com animais vindos de todas as partes do mundo. O dinheiro entrava de forma incalculável nesse período, estima-se que o Cartel de Medellín chegou a faturar cerca de 30 bilhões de dólares por ano.

Tanto sucesso em seus negócios fez de Escobar um inimigo dos governos dos Estados Unidos e da Colômbia, mas para muitos em Medellín ele era um herói, bem relacionado fez muitas coisas para melhorar a vida dos mais pobres da cidade. Construiu estádios, financiou times de futebol, construiu casas populares, e até distribuindo dinheiro aos pobres. Tamanha bondade lhe rendeu a alcunha de Robin Hood.

Com a ajuda do governo americano, a polícia da Colômbia encontrou Escobar, que estava foragido desde 92, achado num bairro de classe média de Medellín, encurralado num telhado Escobar trocou tiros e acabou sendo executado com um tiro fatal no ouvido.

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Antes de se tornar mal social a cocaína foi usada como medicamento no tratamento de feridas, anestésico local, elixir do vinho Mariani, muito apreciado pelo Papa Leão XIII. A coca-cola foi inventada numa tentativa dos comerciantes americanos de competir com o vinho Mariani, e seu poder atrativo foi determinante no sucesso da bebida.

No início a droga era usada apenas para tratar dependentes da morfina, mas sua eficaz ação nos neurotransmissores responsáveis pela sensação de prazer no cérebro chamou a atenção dos psiquiatras. A partir de então se o mal fosse do humor, uma severa depressão, por exemplo, os médicos não pensavam duas vezes em receitar soluções à base de cocaína. Que o diga Sigmund Freud, usuário e promotor da droga no início do século 19, época em que chegou a publicar o livro Über Coca, sobre suas experiências com o pó branco. Com a palavra, o pai da psicanálise: “O efeito da cocaína é uma exuberante e duradoura euforia que, de forma alguma, difere das sentidas naturalmente pelos seres humanos”. Anos depois, o médico reconheceu estar errado diante dos altos índices de pessoas viciadas no tóxico.

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Hoje mesmo proibida a cocaína pode ser encontrada facilmente no armarinho do banheiro nas festas de bacanas, algumas vezes servida em bandejas na sala se o pessoal for mais descolado, é conhecida como aspirin for the rich (aspirina dos ricos), vendida principalmente nas periferias e regiões mais pobres da cidade. Se fosse legalizada os governos da Colômbia, Bolívia e Peru teriam rendimentos de 70 bilhões por ano, dinheiro que Pablo Escobar usou para melhorar as condições de vida do seu povo. E mesmo sento o maior comerciante da droga no mundo, Escobar nunca usou cocaína durante sua vida.

A cocaína assim como o cigarro causa dependência sim, mas seus malefícios ao corpo são menores dos que os caudados pela nicotina.

Autor: @robsonpnx
Imagem: Beto Martinez
Imagem_2: Robson Almeida

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Pseudo Herói!

Dias de chuvas são bons pra remoer lembranças… E vendo meu bairro sitiado pela polícia esses dias, me lembrei duma época em que houve confronto entre traficantes aqui no morro. E em meio a uma sanguinolenta guerra entre os mano da Felicidade e da Macedônia, onde morria ao menos uns 10 por semana, eu esbarrei numa menina chamada Marcia, foi num sábado meio nublado, em que a turma resolveu bater uma bola no campinho da favela Felicidade.

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Marcia tinha um olhar especial. Mais do que especial, era até perfurante. Os olhos cor-de-mel mais pareciam duas pedras preciosas em um rosto esculpido como se fosse à mão, sardas espalhadas pelo rosto e pelo corpo, e um sotaque pernambucano gostoso que herdara da mãe. Junto com tanta beleza ela trazia uma porrada de problemas in-solucionáveis, era irmã do braço direito do mano que administrava a lojinha da Felicidade, sua mãe namorava um PM corrupto, o pai ela nunca conheceu, e de quebra ela ainda tinha uma irmãzinha pequena pra tomar conta.

Marcia sempre invadia minha casa no meio da tarde, e costumava ficar até o anoitecer, me contava das coisas que aconteciam la na favela, as mortes que já tinha presenciado, as armas que o irmão escondia, e o trato que o padrasto tinha com os traficantes, ela sabia de todo o esquema. Quando passava a noite comigo, frequentemente tinha horríveis pesadelos, acordava gritando, se debatendo, suada, exausta de tanto fugir. Olhando para trás, hoje sinto imensa vergonha de tentar ser seu herói. Sentia por ela um enorme tesão humanitário, aquele tesão potencializado pela vontade egocêntrica meio hipócrita de salvar alguém. Marcia era muito gostosa, e na cama seu desespero se traduzia no mais puro tesão. Eu nunca mais encontrei uma parceira que me proporcionasse o prazer com a excitação alucinada como ela fazia, ela transava como se fosse um animal ferido e faminto atracado com um osso… O mundo inteiro deixava de existir enquanto ela murmurava segredos de liquidificador, seu orgasmo desesperado vinha parecido com um choro!

Mas, passado o entusiasmo inicial, comecei a me sentir sufocado pela sua carência. Já não tolerava mais a forma como ela se achava de casa na minha casa, sua irmãzinha, adorável no começo, mostrou-se uma pestinha de grito estridente, e a única coisa boa em te-la por perto era sentir o tesão dos nossos corpos, mas me sentia culpado por não ama-la, e não poder ser seu herói.

Fui salvo então por uma discussão entre seu irmão e seu padrasto, os dois se desentenderam e seu irmão matou o padrasto que também era PM. Sabendo do perigo que passaram a corre, a família inteira voltou para o Pernambuco, desde então nunca mais nos encontramos! Alguns meses depois a policia sitiou o bairro e o confronto dos traficantes teve fim.

Autor: @robsonpnx
Imagem: Esra Roise

Virei ROMARIO, fui a uma Romaria!

Pois é galerinha, eu topei o desafio de caminhar 74km de São Paulo à Pirapora do Bom Jesus, um percurso realizado em aproximadamente 10hs, deixo para vocês 10 tópicos, um para cada hora de caminhada para que vocês tenham uma dessa minha experiência;

  1. Na primeira hora, é tudo maravilha, você tem assunto a beça, da risada pra caramba, todos caminham juntos e você esta com a corda toda, parece até que vai ser fácil;
  2. Na segunda hora, você se sente o próprio Raposo Tavares desbravando São Paulo, se for bom de passada já esta em outra cidade caminhando, então se da conta de que esta ficando cada vez mais longe de casa;
  3. Na terceira hora, você já começa a se perguntar de quem foi a idiota ideia de fazer aquilo, mas ainda tem motivação de sobra e não se abala;
  4. Chegando na quarta hora, alguns começam a se distanciar, e as primeiras dores vem chegando, você começa a sentir sede, fome, e ansiedade, quer sair correndo pra chagar logo;
  5. Pelo que me lembro, a estas alturas estávamos atravessando Osasco, quase no final já. Meus pés já tinham bolhas, eu já não sentia sede, nem fome, mas ainda tinha pique pra caminhar sem enrolação;
  6. Sexta hora, é provável que estivéssemos no primeiro ponto de apoio, há o pessoal do apoio, que galera firmeza! Sempre passando de carro nos oferecendo água, comprimido pra dor, comida, sem eles nunca seria possível uma romaria. Abastecemos nossas energias e partimos novamente a caminhar;
  7. Seu corpo grita, você já não consegue manter a passada ha algumas horas, e a cada hora diminui o ritmo, não é preguiça, falta de preparo, é que seu corpo esta chagando no seu limite;
  8. A estas horas o silencio já domina a cena, você meio que se polpa pra vai saber o que, só se mantem caminhando, vez por outro o companheiro de caminhada solta uma besteira, ou manifesta o desejo de estar em outro lugar que não aquele;
  9. Na nona hora, você já não vê a hora de chegar, sua musculação esta quase travando, caminha se torna quase um mantra, uma meditação profunda, você foca no barulho do seu pé pisando no chão e nada mais, as vezes passa um carro, as vezes você espera que passe um carro;
  10. Por Deus, parece que você vai desmontar a qualquer momento, cada passo é sofrido, quanto mais se chega perto, mais longe fica, você esta usando não mais sua força, você esta usando o peso do seu corpo para se lançar no próximo passo, e caminha, caminha até chegar;

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O legal é que você acaba conhecendo um pouco mais o seu corpo, entende realmente o que pode fazer com ele. Uma romaria para quem não é religioso como eu talvez sirva pra isso: Conhecer e compreender a interdependência entre os órgãos que compõem nosso corpo físico, dedicar um tempo para se conectar e conhecer seu estado de saúde, tornar a eficiência do corpo num instrumento para expansão da alma.

Admiro muito os que fizeram esse mesmo percurso por fé, uma forma de sacrifício que eu jugo desnecessário, mas com certeza enriquece a alma daqueles que topam o desafio.

Autor: @robsonpnx
Imagem: Kenny Random