Arquivo da tag: Corrupção

O Vendedor de Peixes

Eu sempre morei na rua da feira, me acostumei a atravessar ela todas as manhãs de terça-feira pra ir onde quer que eu fosse. Quando criança ia sempre com meu pai, pra comer pastel e ainda voltar pra casa com aquele sacão de massinha. Ir a feira sempre foi um programão pra mim, tem calor humano, e eu gosto disso.

Certa vez, quando eu tinha uns 14 anos se instalou na feira uma barraca de peixes um tanto duvidosa. A higiene era precária, o dono era muito humilde, não tinha muita instrução, não utilizava nada para manter a conservação dos pescados. Qualquer um percebia que ele fazia aquilo de maneira amadora para garantir um sustento honesto a sua família.

Na época da quaresma com os preços super em conta da barraca, o bairro em peso foi à feira e compraram praticamente tudo o que o humilde homem tinha para vender. Naquela semana ele certamente lucrou bastante com a sua barraca, e fez a alegria de toda sua família.

Só que o consumo dos pescados foi indigesto pra muita gente, eles causaram uma virose coletiva no bairro. Foi um tal de vomita pra lá, corre pro bainheiro pra cá, todo mundo com cólica, soro caseiro aos litros na tentativa de ressuscitar o vigor. O burburinho das senhoras revoltadas culpando os pescados tomou conta do bairro, e um ódio passou a ser alimentado por muita reflexão de horas sentados no trono. Ódio daquele miserável vendedor de peixes, que fez a alegria de muita gente com seus preços baixos.

Na semana seguinte, houve uma muvuca generalizada ao redor da barraca do vendedor de peixes, uns o xingavam, outros queriam destruir sua barraca, e havia também aqueles querem sempre partir pra violência e quebrar mesmo a cara do homem. Ele um senhor humilde ficou apavorado, disse que não tinha culpa alguma, e apresentou sua licença para funcionar. Meu pai interviu na confusão temendo que o pobre homem fosse lixado pelos furiosos. Conversou com as pessoas a sua volta, e também com o vendedor de peixes, acalmou os ânimos, esperou que o vendedor recolhesse suas coisas e fosse embora, só então voltamos pra casa.

Eu fiquei furioso com ele, eu também tinha passado mal, e queria ajudar a dar umas porradas naquele picareta que tinha envenenado o bairro inteiro. No caminho de casa, meu pai interrompeu os meus resmungos e me deu uma lição que só um pai pode dar a um filho.

Ele me disse que enquanto conversava com o vendedor de peixes, descobriu que ele havia pago propina para o fiscal da feira para vender seus peixes sem maiores problemas. Mais um motivo para eu querer ver ele se dar mal. Mas, meu pai, com toda sua sabedoria disse que todas aquelas pessoas que estavam ali querendo agredir aquele homem queriam mesmo era encontrar um culpado para o erro delas, estavam transferindo a culpa deles em terem procurado a alternativa mais barata, pois na semana anterior a barraca era um sucesso, os presos cabiam nos bolsos de todos, e ao comprar na barraca que visivelmente tinha a higiene precária, todos assumiram o risco de contraírem uma doença, ou passar mal como aconteceu.

Eu ainda sem entender no que isso eximia o vendedor de culpa perguntei ao meu pai; “Afinal de quem é a culpa?”. E então ele serenamente me respondeu que a culpa era da corrupção. Foi o fiscal corrupto que permitiu o vendedor montar uma barraca sem as devidas condições para funcionar, e que poderia ter matado varias pessoas com uma intoxicação alimentar. O fiscal poderia ter orientado o vendedor da forma correta, para que ele se adequasse as normas e montasse sua barraca do jeito certo, assim ele não teria feito mal a ninguém. Foi também por sermos corrompidos pelos preços baixos que incentivamos o homem a continuar a vender seus pescados de forma precária, se ninguém comprasse os peixes dele, ele certamente não os venderia mais.


Nos últimos dias tenho visto na TV especialistas de diversas áreas apontado possíveis culpados pela tragédia de Santa Maria. E me lembrei dessa lição que meu pai me deu, a culpa é de todos nós que somos coniventes com a corrupção. Porque tragédias acontecem há todo momento, aviões caem, "Titanics" afundam, prédios desabam, mas a corrupção é a tragédia não percebida que à entre nós, melhor, é percussora de uma série de erros não anunciados que acabam desembocando em catástrofes como a de Santa Maria. Mas o defeito principal do País talvez seja a displicência, irmã da eterna incompetência que nos aflige desde a colônia. São as tragédias em gestação. Os problemas só surgem quando não há mais solução. Vejam os jornais, onde as notícias são sobre coisas que não deram certo, erros de cálculo, obras inacabadas, preços superfaturados, uma lista diária de fracassos, do que poderia ter sido e não foi. Ou então a inocência eterna: ninguém sabe de nada, ninguém pecou, ninguém roubou nunca. São os "desacontecimentos" que a corrupção permite acontecer a todo momento.

tumblr_mhejk5tmAa1qhwy0bo1_1280

236 Sonhos roubados, 236 vidas perdidas, 236 mães desesperadas, 236 famílias desoladas e 1 país unido em uma única dor.

Autor: @robsonpnx

E se eles fossem só um Zé?

O fim de semana foi marcado na mídia pela morte de duas pessoas. Mas, como assim, a morte de duas pessoas, se ao todo foram 32 assassinatos desde a última segunda-feira 16 de julho. A repercussão desse dois crimes está relacionada a classe social a qual os mortos pertenciam.

A noticia da morte do publicitário Ricardo Prudente de Aquino, de 39 anos, executado por PMs no Alto de Pinheiros, após uma abordagem mal feita, não para de repercutir na mídia, não só aqui em São Paulo onde tudo aconteceu, como no resto do mundo. E mesmo com imagens mostrando o fato dos PMs não se darem o trabalho de ligarem as sirenes e giroflex, para mostrar que estavam perseguindo o carro do publicitário, e os diversos tiros disparados contra um homem desarmado, o comandante interino da PM, Hudson Camilli, não admitiu erros por parte dos policiais. "Foi uma ação tecnicamente correta, porque houve a perseguição de um suspeito que desobedeceu à ordem de parada." Disse ele. Que ordem?

O outro crime que repercutiu na mídia em todo o mundo, foi o assassinato do bancário Tomasso Lotto, 26 anos, Italiano recém chegado a São Paulo e que não falava português. Tomasso foi morto numa tentativa de assalto no cruzamento das avenidas 9 de Julho e São Gabriel, no Itaim Bibi – novamente um bairro nobre da cidade – ele foi baleado no tórax, mas não resistiu aos ferimentos e morreu. Os dois criminosos fugiram e até o momento não há pistas.

O secretário de Segurança de São Paulo, Antônio Ferreira Pinto, afirmou tratar-se de mais um crime dos vários que ocorrem na cidade. "É um a mais que ocorre na capital. A gente lamenta, o DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) e o Deic (Departamento de Investigações Contra o Crime Organizado) e estão fazendo todas as investigações no sentido de elucidar esse crime. Mas isso ocorre lá, ocorre na Cidade Tiradentes, ocorre em Itaquera. Lamentavelmente é a escalada da violência."

Em relação a execução do publicitário o secretário disse não faltar treinamento aos PMs e que o comando da corporação controla a tropa. "Controle absoluto", garantiu ele. "O comando está plenamente tranquilo de que tem o comando nas mãos. Não há nenhuma precipitação ou hipersensibilidade por parte dos policiais que trabalham na rua".

Entre 2006 e 2010, 2.262 pessoas foram mortas após supostos confrontos com PMs paulistas, mas o que a PM não sabe, é que confronto é quando os dois lados se atacam, e não quando há uma execução onde o outro lado não teve reação alguma. Nesse momento em que o mundo está de olho aqui por conta dos futuros eventos esportivos que vamos sediar nos próximo anos, não podemos deixar que aqueles que são responsáveis por nossa segurança deem respostas como as do secretário Antônio Ferreira Pinto, e a do comandante Hudson Camilli, que ao se depararem com a sua falta de competência, dão a população respostas vagas saindo pela tangente.

E se eles fossem só um Zé?

Estas duas mortes só estão sendo noticia porque aconteceram com pessoas com grande poder aquisitivo, pobre morre a todo momento, e nunca faz falta, se morre o Zé porteiro, o Zé faxineiro, o Zé pedreiro é só contratar outro pra colocar no lugar, mais rico quando morre causa um certo alvoroço, afinal quando a violência chega onde ele não deveria, causa pânico em quem tem né!

Autor: @robsonpnx

Pseudo Herói!

Dias de chuvas são bons pra remoer lembranças… E vendo meu bairro sitiado pela polícia esses dias, me lembrei duma época em que houve confronto entre traficantes aqui no morro. E em meio a uma sanguinolenta guerra entre os mano da Felicidade e da Macedônia, onde morria ao menos uns 10 por semana, eu esbarrei numa menina chamada Marcia, foi num sábado meio nublado, em que a turma resolveu bater uma bola no campinho da favela Felicidade.

376733_221088684631526_168006659939729_555140_783196233_n_large

Marcia tinha um olhar especial. Mais do que especial, era até perfurante. Os olhos cor-de-mel mais pareciam duas pedras preciosas em um rosto esculpido como se fosse à mão, sardas espalhadas pelo rosto e pelo corpo, e um sotaque pernambucano gostoso que herdara da mãe. Junto com tanta beleza ela trazia uma porrada de problemas in-solucionáveis, era irmã do braço direito do mano que administrava a lojinha da Felicidade, sua mãe namorava um PM corrupto, o pai ela nunca conheceu, e de quebra ela ainda tinha uma irmãzinha pequena pra tomar conta.

Marcia sempre invadia minha casa no meio da tarde, e costumava ficar até o anoitecer, me contava das coisas que aconteciam la na favela, as mortes que já tinha presenciado, as armas que o irmão escondia, e o trato que o padrasto tinha com os traficantes, ela sabia de todo o esquema. Quando passava a noite comigo, frequentemente tinha horríveis pesadelos, acordava gritando, se debatendo, suada, exausta de tanto fugir. Olhando para trás, hoje sinto imensa vergonha de tentar ser seu herói. Sentia por ela um enorme tesão humanitário, aquele tesão potencializado pela vontade egocêntrica meio hipócrita de salvar alguém. Marcia era muito gostosa, e na cama seu desespero se traduzia no mais puro tesão. Eu nunca mais encontrei uma parceira que me proporcionasse o prazer com a excitação alucinada como ela fazia, ela transava como se fosse um animal ferido e faminto atracado com um osso… O mundo inteiro deixava de existir enquanto ela murmurava segredos de liquidificador, seu orgasmo desesperado vinha parecido com um choro!

Mas, passado o entusiasmo inicial, comecei a me sentir sufocado pela sua carência. Já não tolerava mais a forma como ela se achava de casa na minha casa, sua irmãzinha, adorável no começo, mostrou-se uma pestinha de grito estridente, e a única coisa boa em te-la por perto era sentir o tesão dos nossos corpos, mas me sentia culpado por não ama-la, e não poder ser seu herói.

Fui salvo então por uma discussão entre seu irmão e seu padrasto, os dois se desentenderam e seu irmão matou o padrasto que também era PM. Sabendo do perigo que passaram a corre, a família inteira voltou para o Pernambuco, desde então nunca mais nos encontramos! Alguns meses depois a policia sitiou o bairro e o confronto dos traficantes teve fim.

Autor: @robsonpnx
Imagem: Esra Roise