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Pseudo Herói!

Dias de chuvas são bons pra remoer lembranças… E vendo meu bairro sitiado pela polícia esses dias, me lembrei duma época em que houve confronto entre traficantes aqui no morro. E em meio a uma sanguinolenta guerra entre os mano da Felicidade e da Macedônia, onde morria ao menos uns 10 por semana, eu esbarrei numa menina chamada Marcia, foi num sábado meio nublado, em que a turma resolveu bater uma bola no campinho da favela Felicidade.

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Marcia tinha um olhar especial. Mais do que especial, era até perfurante. Os olhos cor-de-mel mais pareciam duas pedras preciosas em um rosto esculpido como se fosse à mão, sardas espalhadas pelo rosto e pelo corpo, e um sotaque pernambucano gostoso que herdara da mãe. Junto com tanta beleza ela trazia uma porrada de problemas in-solucionáveis, era irmã do braço direito do mano que administrava a lojinha da Felicidade, sua mãe namorava um PM corrupto, o pai ela nunca conheceu, e de quebra ela ainda tinha uma irmãzinha pequena pra tomar conta.

Marcia sempre invadia minha casa no meio da tarde, e costumava ficar até o anoitecer, me contava das coisas que aconteciam la na favela, as mortes que já tinha presenciado, as armas que o irmão escondia, e o trato que o padrasto tinha com os traficantes, ela sabia de todo o esquema. Quando passava a noite comigo, frequentemente tinha horríveis pesadelos, acordava gritando, se debatendo, suada, exausta de tanto fugir. Olhando para trás, hoje sinto imensa vergonha de tentar ser seu herói. Sentia por ela um enorme tesão humanitário, aquele tesão potencializado pela vontade egocêntrica meio hipócrita de salvar alguém. Marcia era muito gostosa, e na cama seu desespero se traduzia no mais puro tesão. Eu nunca mais encontrei uma parceira que me proporcionasse o prazer com a excitação alucinada como ela fazia, ela transava como se fosse um animal ferido e faminto atracado com um osso… O mundo inteiro deixava de existir enquanto ela murmurava segredos de liquidificador, seu orgasmo desesperado vinha parecido com um choro!

Mas, passado o entusiasmo inicial, comecei a me sentir sufocado pela sua carência. Já não tolerava mais a forma como ela se achava de casa na minha casa, sua irmãzinha, adorável no começo, mostrou-se uma pestinha de grito estridente, e a única coisa boa em te-la por perto era sentir o tesão dos nossos corpos, mas me sentia culpado por não ama-la, e não poder ser seu herói.

Fui salvo então por uma discussão entre seu irmão e seu padrasto, os dois se desentenderam e seu irmão matou o padrasto que também era PM. Sabendo do perigo que passaram a corre, a família inteira voltou para o Pernambuco, desde então nunca mais nos encontramos! Alguns meses depois a policia sitiou o bairro e o confronto dos traficantes teve fim.

Autor: @robsonpnx
Imagem: Esra Roise

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Se concentra e senta…

Se concentra e senta… Se concentra e senta…

A frase vem acompanhada de uma forte batida que tira minha concentração enquanto tento escrever! Me levanto, vou a cozinha, tomo um café, e depois outro café. Assalto a geladeira, mas nada adianta! A batida continua cada vez mais forte, a musica muda, as letras deterioram e agora vem acompanhadas de gritos e risadas!

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Eu bem que gostaria, gostaria mesmo de compartilhar alegremente do progresso no meu bairro, da felicidade dessas pessoas que agora podem ter carro, motos, e frequentam a KONNECT, baladinha que abriram no bairro. Só que não é tão simples assim, o problema não esta em você poder ter, esta em você não saber usar, pra que tanto som? Equipar carro com som aqui na quebrada virou moda, mas quem vai aguentar viver com tanto barulho? Enquanto educação e cultura não forem prioridade o dinheiro só vai servir para transformar a favela num inferno, onde se compra um guarda-roupa novo e o velho se joga na rua, onde o sofá usado vai parar dentro do córrego, consumir sem conhecimento, é empinar moto por onde passam crianças, é tomar whisky com energético, Catuaba com Schweppes, é usar farinha demais, é parar em todo posto para abastecer o carro e o corpo com cerveja!

Alias, porque postos de gasolina vendem cerveja, se a ideia e não dirigir depois de beber? Alguém pode me explicar!

Autor: @robsonpnx
Imagem: Klayton

Zica de Favela!

A expressão pode até lhe ser nova, mas tenho certeza que você já viu alguma por ai, e elas existem aos montes, e o tipo não faz distinção de sexo ou etnia, mas se apega muito a classe social. Não é por preconceito, isso é uma coisa que eu não tenho, moro no morro e todos que me conhecem sabem disso, não moro onde moro só por causa da vista que é bonita, é por falta de grana mesmo para morar no Itaim ou na Bela Vista! Mas, apesar de morar onde moro tem uns tipos por aqui que não me dessem!!!

Sei que é difícil pra quem nunca esteve na periferia imaginar as coisas que vou descrever nesse texto, mas acreditem é tudo real, a “realidade do tempo presente”. Aqui se vê garotas de 12 à 15 anos de idade, com corpos já deformados, barriga saliente e no epicentro dessa barriga jaz um piercing enorme, passeando com calcinhas socadas, mini shorts colados ao corpo e tops transparentes, no exercício escancarado da sedução sexual como instrumento de ascensão em ambientes onde práticas incestuosas e violência sexual contra menores é algo que beira o corriqueiro. Elas ainda tem por habito dançar funk de forma vulgar no meio da rua como se isso fosse a coisa mais linda de se ver, em geral essas garotas se envolvem com traficantes ou marginais médios para ter em troca bebidas, drogas e uma suposta fama de boazuda, como se uma musica que faz qualquer mulher inteligente se sentir um lixo fosse capaz de torna-las melhores do que realmente são. Como consequência desse comportamento tudo que vejo são mães solteiras que arrastam seus filhos para a fila do leite doado pelo governo, sobrevivem do “bolsa família” dado pelo governo, e complemento essa renda servindo de mulas para levar drogas pra dentro dos presídios, dando o pior dos exemplos para seus filhos que muitas vezes não conhecem seus pais!

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Enquanto a ultima novela das 8 criava todo um mistério em torno do personagem Gerson por conta da sua tara por ver homens transando e o mundo assistia a invasão dos morros no Rio de Janeiro, eu e meus amigos gastávamos nossa saliva para tentar de alguma forma entender essa forma de diversidade a que chamamos de “Zica de Favela”, mas, na boa, nem os mais conceituados antropólogos arriscariam dar um parecer que justifique esse tipo de comportamento.

Mas, os comportamentos fora do comum não se limitam apenas as meninas sem perspectiva de futuro. Muito além do péssimo gosto musical, existe seres sem valores familiares ou sociais, pessoas que vivem a margem da lei, realizando praticas ilícitas para lucrar um qualquer. É o caso dos bicheiros e donos de maquinas caça niqueis, estes se aproveitam do fraco que os brasileiros tem por jogos de azar. Os bares e igrejas evangélicas que existem aos montes, tirando das pessoas o pouco que resta dos salários miseráveis que ganham, e como poderiam moradores de um lugar onde se vê uma polícia conivente com o errado, recebendo arrego dos traficantes pra deixar o trafico rolar solto!

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Esses analfabetas funcionais a quem chamamos de “Zica de Favela” são um reflexo dessa sociedade que não tem mais valores, não consideram um jovem agredir o outro com uma lâmpada um ato de violência, não enxerga na menina de classe medial que pede próteses de silicone aos pais uma potencial perua fútil e soberba. Como eu disse no inicio do texto, essa é “a realidade do tempo presente”…

Autor: @robsonpnx