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O velório da Galinha!

Passando pela praça Rafael Sapienza, na Vila Madalena observei uma cena no mínimo inusitada, um pombo velava uma galinha. Lá estava ele, impassível, observando o corpo da penosa abatida em sacrifício cerimonial, ela que jazia em uma generosa porção de farofa, acomodada em um vistoso prato de cerâmica. Nem mesmo minha presença curiosa ao me aproximar para tirar a foto o afastou do velório dela. Vez ou outra, ele ciscava de leve a borda do prato de cerâmica. Talvez isso significasse um ato de amor, garantindo que o descanso final da galinha permanecesse limpo e apresentável. Ou talvez não significasse coisa alguma porque, afinal de contas, ele era apenas um pombo. E, pelo visto, dos mais sujos.

Em determinado momento, o pombo se virou e me fitou. Olhei fixo em seus olhos esperando sua próxima reação. Então, seu bico me apontou as árvores ao redor onde também jaziam outros frangos, abatidos em vasilhas de cerâmica, alguns já em decomposição, fruto do implacável tempo. Sim, aquela esquina havia se tornado uma zona livre para despachos.

Por fim, aceitando o seu lugar no teatro do mundo, o pombo fez uma breve reverência com a cabeça e voou para longe, recolhendo seu luto

SEM-TT~1

Diante disso, é impossível deixar de perguntar:

Qual o santo que vale por São Paulo?

Com todo respeito às diferentes manifestações religiosas, mas uma praça em plena Vila Madalena, bairro nobre e boêmio, onde brincam crianças e famílias fazem piqueniques não pode se tornar um local de acúmulo de despachos por dias a fio sem que o poder público os venha recolher.

São Paulo é uma cidade global. Mas, ao contrário de moradores de outras urbes, como Paris e Londres, apenas agora o paulistano começa a ocupar praças como um espaço que lhe pertence. Comer com a família ou amigos em uma área verde é muito melhor do que na frente da TV, assistindo ao Faustão ou ao Sílvio Santos. Se essas áreas não estiverem conservadas, aí que o povo não vai sair de casa mesmo. Até porque São Paulo é dos carros. E dos pombos.

Kassab, toma que o frango é teu!

Autor: @robsonpnx

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Fé em Deus…

— Você tem fé em Deus?

A pergunta veio direta. Jogada na cara como coice, de repente. Pararam, até sem querer, pensantes…

— Olha, tenho não.

Ele precisava se explicar:

— Não tenho mesmo não. Lembra daquela encrenca que tive com aqueles filhos da puta que dominavam lá nos prédios do CDHU por causa de namorada?

— Fiquei sabendo, parece que eles quase te mataram, você ficou um tempo hospitalizado, não foi?

— Pois é. Eu já estava baleado, todo arrebentado de pauladas, amarrado e amordaçado como um animal debaixo de uma cama. Eles esperavam o carro que um deles fora buscar, para me levar para o mato e liquidar comigo. Não queriam sujar a casa com meu sangue. Eles falavam em minha frente, qual eu já não existisse e ali estivesse somente um cadáver que eles iriam “desovar”. Já estava até escalado quem me daria os tiros fatais. Era um sujeito com jeito de índio e olhar esbugalhado. Ele me olhava e sorria como um meigo de débil mental. Percebi depois que naquele meio sorriso ele expressava o prazer que teria em me matar. Era como se fizesse aquilo todos os dias e precisasse de algum prazer para continuar fazendo. Eu já estava morto.

— Mas como, você esta aqui agora…

— Nessa hora fiz a mais sincera oração de minha vida. Conversei com Deus. Lembra daquela música do Antônio Marcos? Pois é, lembrei de todas palhaçadas de minha vida, aquilo passou como um raio, em décimos de segundos. Pedi por minha vida. Falei de meus filhos pequenos que careciam de mim para cria-los, chorei todas as dores de meus erros e defeitos. Ali realmente acreditei que fosse possível o perdão e uma intervenção imediata. Mas nada, Ele não interveio, me deixou ali à morte…

— Mas você…

— Sei, eu estou aqui, não é? Mas não foi graças a Deus não. Graças aos policiais que me resgataram. Se não é a viatura da polícia chegar naquela hora, estaria morto a estas horas…

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— Pois é, eu também penso como você.

Levanta-se da mesa do bar e diz, Bernardo.

— Meu, a polícia me pegou o mês passado, me confundindo com o Joca lá da “lojinha”. Eu dizia que não era o Joca e eles mostravam a foto: parecia de fato comigo. Bateram sem dó. Tomei uma coronhada com uma espingarda, olha aqui, ó, ó, ó… O sangue esguichou e eu cai como uma abóbora madura. Fui chutado vezes incontáveis e tomei coronhadas na cara e na cabeça. Só então, comigo ali já caído e cheio de sangue, pegaram minha carteira que havia caído do bolso e viram, pela identidade, que eu não era o Joca. Pela quantidade de sangue, acho que eles acharam que já haviam acabado comigo. Jogaram dentro da viatura e iam saindo, creio que para acabar de matar e jogar no mato.

— Mas você também esta aqui…

— Nessa hora apelei para Deus e todos os santos. Rezei todas as rezas que sabia desde criança, chorei pedindo que preservassem minha vida, eu não podia morrer ainda. E nada. Fiquei ali abandonado, minando sangue, para morrer…

— Mas…

— Então, se não é a Daniele… eu já estaria morto. Ela me salvou. Viu quando eles me abordando na rua. Correu em minha casa e trouxe minha mãe, os vizinhos e as crianças. Foram para cima da viatura quando eles estavam saindo. Assustaram os policiais e os obrigaram a me levar para o Hospital Geral. Os policiais disseram que se não é ela, eu já era. É a Daniele que agradeço o fato de estar vivo agora.

Terminou assim aquele insólido diálogo sobre a não-fé-em-Deus naquela mesa de bar…

Autor: Luiz Mendes

Virei ROMARIO, fui a uma Romaria!

Pois é galerinha, eu topei o desafio de caminhar 74km de São Paulo à Pirapora do Bom Jesus, um percurso realizado em aproximadamente 10hs, deixo para vocês 10 tópicos, um para cada hora de caminhada para que vocês tenham uma dessa minha experiência;

  1. Na primeira hora, é tudo maravilha, você tem assunto a beça, da risada pra caramba, todos caminham juntos e você esta com a corda toda, parece até que vai ser fácil;
  2. Na segunda hora, você se sente o próprio Raposo Tavares desbravando São Paulo, se for bom de passada já esta em outra cidade caminhando, então se da conta de que esta ficando cada vez mais longe de casa;
  3. Na terceira hora, você já começa a se perguntar de quem foi a idiota ideia de fazer aquilo, mas ainda tem motivação de sobra e não se abala;
  4. Chegando na quarta hora, alguns começam a se distanciar, e as primeiras dores vem chegando, você começa a sentir sede, fome, e ansiedade, quer sair correndo pra chagar logo;
  5. Pelo que me lembro, a estas alturas estávamos atravessando Osasco, quase no final já. Meus pés já tinham bolhas, eu já não sentia sede, nem fome, mas ainda tinha pique pra caminhar sem enrolação;
  6. Sexta hora, é provável que estivéssemos no primeiro ponto de apoio, há o pessoal do apoio, que galera firmeza! Sempre passando de carro nos oferecendo água, comprimido pra dor, comida, sem eles nunca seria possível uma romaria. Abastecemos nossas energias e partimos novamente a caminhar;
  7. Seu corpo grita, você já não consegue manter a passada ha algumas horas, e a cada hora diminui o ritmo, não é preguiça, falta de preparo, é que seu corpo esta chagando no seu limite;
  8. A estas horas o silencio já domina a cena, você meio que se polpa pra vai saber o que, só se mantem caminhando, vez por outro o companheiro de caminhada solta uma besteira, ou manifesta o desejo de estar em outro lugar que não aquele;
  9. Na nona hora, você já não vê a hora de chegar, sua musculação esta quase travando, caminha se torna quase um mantra, uma meditação profunda, você foca no barulho do seu pé pisando no chão e nada mais, as vezes passa um carro, as vezes você espera que passe um carro;
  10. Por Deus, parece que você vai desmontar a qualquer momento, cada passo é sofrido, quanto mais se chega perto, mais longe fica, você esta usando não mais sua força, você esta usando o peso do seu corpo para se lançar no próximo passo, e caminha, caminha até chegar;

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O legal é que você acaba conhecendo um pouco mais o seu corpo, entende realmente o que pode fazer com ele. Uma romaria para quem não é religioso como eu talvez sirva pra isso: Conhecer e compreender a interdependência entre os órgãos que compõem nosso corpo físico, dedicar um tempo para se conectar e conhecer seu estado de saúde, tornar a eficiência do corpo num instrumento para expansão da alma.

Admiro muito os que fizeram esse mesmo percurso por fé, uma forma de sacrifício que eu jugo desnecessário, mas com certeza enriquece a alma daqueles que topam o desafio.

Autor: @robsonpnx
Imagem: Kenny Random